Vivendo Sua Prática

Certa vez um yogin sentiu um forte desejo de libertação.
Com a permissão de seu professor, ele começou uma jornada a uma caverna nos altos do Himalaias e começou uma ardorosa prática meditativa. Sua barba e cabelos cresceram selvagemente. Era tão intensa sua dedicação que muitas vezes não comia, dormia ou tomava banho por dias.
Após 20 anos sentiu-se satisfeito com seu progresso: sua mente estava limpa e clara e, sentia-se meigo, compassivo, terno e tranqüilo. Ele decidiu deixar as montanhas. Após algum tempo ele alcançou a planície e estava faminto. Na esperança de encontrar comida, bateu na primeira porta que encontrou. Uma senhora apareceu na soleira, e ele disse: “Por favor, senhora, poderia me dar um pouco de comida? Eu não como a muito tempo.”
A mulher era muito pobre e estava cansada de ouvir os saddhus pedindo o pouco que ela tinha, pois, ela cresceu ouvindo isso. “Vá embora, você não serve para nada!” ela gritou chorando. “Peça para Deus mandar alimentos do céu. Eu não estou aqui para alimentar você!”
O yogin ficou furioso. “Mulher tola! Como ousa falar comigo dessa forma! Eu estive meditando na solidão por 20 anos! Eu tenho o dever de punir você!”
O yogin gritou trazendo o marido da senhora até a porta.
“Como ousa falar com minha mulher dessa forma?” Ele encolerizou-se. “Eu darei uma boa surra em você.”
As feições do homem se transformaram, e eles estavam agora, no mesmo nível.
Finalmente o marido voltou-se dizendo: “E você se considera um homem completo, equilibrado e iluminado!”
Isso trouxe o yogin a sua consciência. “Só existe uma coisa a fazer,” ele pensou envergonhado. “Eu devo voltar para a caverna e meditar mais. Talvez eu consiga acalmar meu temperamento.”
Ele pegou o caminho de volta para as montanhas, mas ficou surpreso ao encontrar seu professor bloqueando seu caminho.
“Aonde você está indo?” seu professor perguntou.
“De volta para a caverna para meditar,” o yogin respondeu.
“Não,” disse o professor. “Você já é mestre em abhyása (vigilância de percepção), foi a primeira parte de sua disciplina. Agora, você deve ser mestre em vairágya (não-apego) aprendendo como viver no mundo sem estar nele. Esta é a segunda parte da sua disciplina.”
Então, o yogin retornou a planície para aprender o não-apego, no qual, sentando em meditação dá poucos frutos.

Definições

Este conto trata de dois aspectos importantes na prática do Yoga e, exposto no Yoga Sútra de Patañjali: abhyása e vairágya.
Abhyása significa vigilância de percepção ou o esforço do yogin em manter a mente sattva (em equilíbrio). É traduzida erroneamente como prática. Isso acabou gerando confusão e ênfatizando o método de Yoga ou determinado estilo/segmento em particular com as suas técnicas e regras próprias. Não existe método para o abhyása mas, sim, apenas vigilância de percepção. Não existe um estado intermediário para a percepção. Ela existe ou não existe e isto é só! Por que, de outra forma, estamos sempre envolvidos, ou melhor, identificados aos nossos pensamentos e sentimentos. Nossa percepção é turva. Ofuscada pelas reações mentais. Abhyása é estar cônscio das reações. É a prática - ou ação - do percebimento.
Vairágya é um termo sânscrito que significa: mudança ou perda de cor, liberdade de todos os desejos mundanos, indiferença aos objetos mundanos. Comumente traduzido como desapego ou não-apego. É, apenas, uma tradução utilitária e simplista. Muitas vezes, é difícil e, quase impossível, traduzir um termo sânscrito. Não existem palavras adequadas em nosso idioma.

Vamos, então, discriminar alguns comportamentos comuns quando tratamos deste assunto. Se temos um conceito do desapego e, cultivamos essa crença achando que ela é importante, então, estamos, agora, apegados a outro conceito. Apenas trocamos de indumentária. No fundo existe a mesma necessidade de preenchimento emocional/mental. Assim, o yogin faz ‘o caminho oposto’ e indaga a razão de seu apego. Investigando atentamente, questionando ardentemente, tudo aquilo que sente, seja doloroso ou prazeiroso, é indiferente, pois chegaremos a mesma raiz comum. Isso pode levar dias, meses, anos. Não importa, pois, se existir uma preocupação em chegar, então, ele já está preso nas garras de outro conceito do que é o fim e, isto é um absurdo! Acuradamente, ele rastreia toda a expansão de seu ego. Passa a conhecer, a ver claramente dentro dele até chegar a raiz. Não interprete isso como uma terapia ou análise, infelizmente, não existe, aqui, espaço para abordar o assunto. Com isso, há uma ‘mudança de cor’, uma liberdade total do apego, suas idéias, seus conceitos, seus medos etc. Há uma transformação imediata a cada passo, a cada descoberta. Ele se tornou senhor de Si. Isso é vairágya.

Comentário

O conto trata, justamente, da principal dificuldade inicial enfrentada por todo aquele que inicia a jornada: a confusão. São tantas que muitas vezes desistimos. Mas, por que? Será que não percebemos os vários conceitos, as várias idéias, as infinitas imagens que temos a respeito de tudo? E, assim, ao dar o primeiro passo, já temos na mente, por mais tênue ou pálida que seja, um conceito, uma impressão, uma sensação do que é o nosso objetivo. Assim, haverá, obviamente, contradição e confusão. No conto o yogin se achou o tal após os 20 anos de abhyása -tinha na mente um conceito. Foi rejeitado pela mulher. Se sentiu ofendido - como ele era um iluminado o que é um outro conceito. Ele se arrepende e decide voltar para as montanhas. Seu mestre ensina vairágya, na qual ‘sentado’ [isto é, ele tinha dominado, incorporado] em meditação [abhyása] dá poucos frutos [resultado desejado na mente ou imagem/conceito]

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